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Refém da profissão

Imagem: arquivo pessoal

Maria Ribeiro

Maria Ribeiro tem experiência em treinamento em desenvolvimento, com atuação em empresas no Brasil e no exterior, principalmente na indústria de óleo e gás. É formada em Pedagogia pela UFF, com mestrado em Educação e Tecnologia pela UFRJ. Terminou recentemente um MBA em Administração pela Robert Kennedy College.

 

 

Você é refém do seu trabalho?

Ninguém sabe como apresentá-lo ou mesmo deixar de lado, mas todos arrumam uma forma de promover sua mudança, talvez em algo mais atraente, importante ou prazeroso. E, seja através de cursos ou de outras opções, porque o importante é dar-lhe um sentido. Nós sempre tentamos fugir a este ladrão do tempo, que nos consome e muitas vezes rouba nossos sonhos, mas não tem jeito, ele está sempre ali, presente na nossa rotina, na nossa vida. Mesmo tentando abandoná-lo, colocamos condições e sem nos questionarmos, viramos reféns das horas, dos intervalos, das folgas, dos feriados, do que for importante apenas para ele, porque para nós vira somente um descanso, um tempo que nos foi concedido, com ou sem prazer. Eu sou dependente da tarefa, outros são do retorno, do resultado, do ônus ou do bônus, nós somos do brinde, da festa ou da permissão. Estamos ligados a ele seja durante o dia ou mesmo à noite; no turno ou na compensação, ficamos presos aos horários de chegada e de saída, de inicio e de fim. Não se fala em intervalo, segue-se direto porque tempo é dinheiro e não tem moleza não. Ele cria cobranças, corta esperanças e nós sempre queremos muito mais do que ele pode nos oferecer, seja por conta da remuneração ou da reputação – senhor fulano é o dono da situação. O tempo dele é diferente do nosso, apesar de ligarmos o cronometro cedo, mas ele não desiste e não nos dá uma folga sincera, nem permite uma retirada antecipada, mesmo quando a idade chega. O tempo pode parar, a estratégia pode mudar, podemos até esquecer o motivo pelo qual estamos ali, mas ele não dá folga, ao contrário, pede extensão. Abuso ou não. Nós contamos as horas e os minutos para as folgas, ele conta os segundos para a reunião, para a entrega do relatório, para responder aquela questão. Nós damos nosso melhor, sacrificamos os finais de semana, as férias e tudo que ganhamos de volta é um cartaz escrito com um mero bem-vindo ou uma foto engraçada simulando um cartão, com a assinatura dos nossos cúmplices diários. Quando mudamos de situação, ele nos tira o telefone, o cartão, o bônus e ainda os acompanha até o portão, com medo de tirarmos dele a tão batalhada reputação. Quanta bobagem, ele nos faz passar, apenas para manter uma pequena visão da vida naquela prisão. Encontramos uma segunda opção, que nos dá prazer e enche nossas vidas de alegria e tesão, mas mesmo assim, com o saldo positivo, não é fácil administrar dois (des)conhecidos, um mais do que o outro, claro. O primeiro, representado como o chato, o ladrão; o segundo ganha a graça de ser o prazeroso e está sempre em vantagem do primeiro, mesmo que o retorno seja menor, que a grana seja curta ou que o tempo seja ligeiro. O segundo engrandece, faz aparecer; o primeiro estressa, mas faz da vida um lugar melhor,  porque coloca a comida na mesa, paga o aluguel e a escola das crianças. Quem será ele que passa por nossas vidas, que nos dá identidade e faz de nós seres mais humanos, já que ele dignifica o homem e se cresce a partir dele, segundo alguns, que aposto nunca o conhecerem, nem sabem o quanto a realidade é diferente da qualificação, porque sempre teremos uma segunda opção: ou realiza ou vira refém da própria profissão.

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