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Falar ou não Falar? Eis a Questão

A discussão não é nova, mas recorrente. Há os que afirmam que devemos falar tudo que pensamos, colocar claramente para o outro aquilo que agradou e o que não agradou. Extravasar alegrias, raiva e tristeza como forma de não guardar mágoas e ressentimentos que acabamos somatizando e que oferecem consequências terríveis para o corpo e mente.

Não vejo, não falo e não ouço nada! Será?

Eu não sou médica e, também, não sou uma especialista no assunto, mas não pude deixar de pensar nisso quando, junto com o Brasil todo, acompanhei pela televisão o drama que Ricardo Gomes, o técnico do Vasco, está vivendo após sofrer um AVE (Acidente Vascular Encefálico) hemorrágico. Não costumo acompanhar jogos de futebol, apesar do meu marido me lembrar que sou flamenguista desde criancinha, mas amigos me contaram que ele é um dos mais contidos técnicos de futebol. Raramente expressa alegria, raiva ou tristeza, limitando-se a observar o jogo, a pensar, a refletir…  a guardar para si, e somente para si, todo o nervosismo e apreensão que são sentimentos comuns durante uma partida de futebol. Estariam os dois acontecimentos de alguma forma relacionados?

É fato que nossos pensamentos e a saúde da nossa mente, impactam diretamente na manutenção da saúde do nosso corpo. Todos nós sabemos disso e não é necessário estudar medicina. Muitas vezes eu mesma sofri, e muito, com os efeitos danosos trazidos pelo aumento do meu nível de stress emocional. A correlação é direta.

Acho que nós não somos educados a falar o quê pensamos. Na maioria das vezes, somos ensinados a contemporizar. Nossa cultura é bastante focada no cuidar, uma cultura tremendamente relacional, somos do “deixa para lá” que as coisas de alguma forma se resolvem. Talvez, por isso, a maioria de nós evite o conflito, usando-o como recurso último em situações que atingem a definição muito individual de “limite”.

Esse tipo de atitude pode ter impactos danosos nas nossas relações pessoais e no ambiente corporativo. São pequenas coisas que nos desagradam e não falamos para os quê amamos, mas como estamos magoados, arrumamos uma forma de mostrar isso, e o outro acaba ficando sem entender o quê está acontecendo.

Nas empresas são os feedbacks que acabam sendo postergados até o último dia do prazo dado pelo RH para a entrega da temida Avaliação de Desempenho. Chefes, pares, equipes, fornecedores… nós mesmos, todos acabamos sendo impactados quando optamos por não falar, por não mostrar que daquele jeito não dá, que dessa forma não concordamos, que esperamos outra alternativa ou atitude.

Mas não posso deixar de lembrar da busca do equilíbrio, em tudo! Já pensou se passamos a dizer tudo, mas absolutamente tudo, que pensamos? Também sofreríamos com as consequências desse excesso de transparência e pouco praticaríamos a virtuosa tolerância. Lembram do Super Sincero, personagem do Luiz Fernando Guimarães? Ninguém aguentaria conviver com alguém assim, nem nós mesmos nos suportaríamos.

O desafio é mesmo nos mantermos no meio termo, não deixar de falar aquilo que realmente nos magoou, evitando, assim, que pequenas coisas se tornem gigantes e nos tirem a calma e a saúde, mas sem deixar de cuidar do momento que escolhemos para manifestar isso e, o principal, a forma que usaremos para expressar ao outro que alguma coisa não tá muito legal.

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O momento agora é para falar que faço parte da grande torcida que deseja que o Ricardo Gomes possa voltar logo para casa, e bem.

Até,

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2 Comentários

Claudia,
acho que, na verdade, não estamos educados para ouvir verdades e, por esse motivo, também não as falamos. Ninguém ensina a aprender com as críticas e com os erros. Lamentavelmente.
As pessoas, em outras culturas, como a Canadense, são MUITO mais diretas, e ninguém se ofende por isso. No começo, pode-se achar “chocante”, mas certamente é mais produtivo e saudável (como você bem falou).

Abraço,
Enrique

Claudia eu sou defensora da ideia de nos comunicarmos SEMPRE.
É muito ruim ficarmos apenas especulando o que os outros estão pensando… O grande problema éo impacto do que falamos nas outras pessoas. As pessoas parecem fingir que todos pensam do mesmo jeito que elas e quando alguém expressa uma opinião diferente, enfrenta a estranheza de todos…
Porem, ainda prefiro enfrentar isso do que sofrer calada rs
bjs
Marina