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Vitalizar as Organizações: Transgressão Necessária e Urgente

Paulo Monteiro é mestre em Comunicação e Educação pela Pontifícia Universidad Católica de Chile e pela Universidad Autônoma de Barcelona, bacharel em Filosofia pelo Ateneo Regina Apostolorum de Roma, em sua filial de Nova York – EUA e formado em Comunicação Social pela PUC -Rio. Atua como consultor em Desenvolvimento Humano e Organizacional.   Esse texto foi originalemte publicado no Nós da Comunicação.    Twitter @pmonteiro88

O tema do 37º congresso de Gestão de Pessoas da ABRH do Rio de Janeiro, associação da qual faço parte como voluntario, foi ‘Em Busca do Equilíbrio Dinâmico’. Uma proposta ambiciosa que trouxe dois conceitos aparentemente contraditórios. É possível pensar um equilíbrio dinâmico em qualquer realidade? É viável conectar esse paradoxo ao mundo das organizações e da gestão de pessoas?

Para a natureza e sua rede de sistemas vivos, o equilíbrio dinâmico é a forma que garante sua existência e evolução. A ciência moderna nos permitiu observar que as estruturas vivas se mantêm em um estado afastado de equilíbrio, vivem em um fluxo de mudança e dinamismo, um desequilíbrio que, ao mesmo tempo, garante sua vitalidade e evolução em longos períodos de tempo. Para os organismos vivos o mundo da estabilidade e do equilíbrio absoluto é sinônimo de morte, é a criatividade do que é emergente que garante a vida.

Foi por esse exemplo da natureza que um dos convidados ao congresso, o consultor Oscar Motomura, provocou os participantes ao sugerir que as organizações devem aprender a partir da Biomimética, a ciência que busca aplicar lições dos sistemas vivos à realidade humana. O físico Fritjof Capra já vem trabalhando há anos nessa mesma linha, com o que chama de ‘Alfabetização Ecológica’.

Temos muito que aprender dos sistemas vivos: há aproximadamente 3,5 bilhões de anos a vida surgiu no planeta e desde então vem se organizando de forma mais complexa e evoluída a partir de adaptações e reconfigurações que garantem sua sustentabilidade. Mas, que ironia, o ser vivo mais complexo e ‘evoluído’, o ser humano, ser livre e consciente que escolhe os caminhos da sua própria evolução, acabou sendo o responsável pela ameaça dessa forma inteligente e sustentável de vida que a ecologia adotou ao longo de tampo tempo. Parece que não somos bons alunos para aprender a sabedoria e as boas lições dos sistemas vivos.

Seguimos uma lógica equivocada que nos levou a pensar a evolução prioritariamente como crescimento econômico e material, o que trouxe sérias consequências para o mundo em que vivemos. E a maioria das organizações atuais ainda são pensadas e desenhadas a partir dessa lógica. Que paradoxal observar a maioria desses sistemas, que deveriam ser ‘vivos’ – pois são formados por seres humanos – organizados como estruturas engessadas, mecânicas e fragmentadas.

Apesar do avanço da ciência e da tecnologia, do sopro renovado das novas gerações, da importância (ao menos teórica) que o tema ‘pessoas’ vem ganhando nas organizações, muitas destas organizações ainda operam como entidades hierárquicas, grandes pirâmides de poder, controladas por minorias ‘proprietárias’ do capital e do espaço decisório. Não é natural tentar inserir seres vivos em modelos organizacionais artificiais. Essa é a grande herança que o modelo científico-racional-econômico nos deixou, e que permanece, para nossa surpresa, até os dias de hoje.

Em várias de minhas ‘andanças organizacionais’ como consultor, ainda vejo pessoas apegadas ao já conhecido, profissionais com medo de errar, ambientes estressantes, atitudes invejosas, jogos políticos e de poder, fofocas etc. Ainda vemos muitas estruturas formadas por caixinhas ao lado de caixinhas, que também se distribuem verticalmente por níveis que vão ficando mais estreitos e poderosos na medida em que se sobe na pirâmide. Algumas dessas estruturas se materializam em culturas de 15 horas de jornada de trabalho, com diretores que proclamam ser esse o único caminho para crescer na empresa. A inovação e liderança verdadeira são competências difíceis de encontrar em contextos dominados pela obsessão por resultados e mais resultados, pela compulsão pelo maior crescimento no menor tempo possível. Afinal, é preciso chegar primeiro, acertar sempre, ser o maior e o melhor.

Essa mentalidade que ainda predomina no mundo empresarial não é sustentável, ou seja, não se manterá viva por um longo período de tempo, como as redes vivas fizeram ao longo de bilhões de anos. Essa corrida pelo poder e pela concentração do capital, esse vício pela competição e pelo crescimento desenfreado está ameaçando a saúde do planeta, das organizações, e das pessoas que nelas trabalham.

É por isso que precisamos pensar e cocriar caminhos alternativos já!

Outra convidada ao congresso da ABRH nos sugeriu um caminho. Clarice Niskier montou uma peça-monólogo sobre o excelente livro ‘Alma Imoral’ de Nilton Bonder. Em uma performance bela e delicada, a atriz compartilhou a poderosa mensagem de que o corpo representa a tradição, os costumes, a forma já conhecida e ‘equilibrada’ de viver, a repetição de ações que garantem a ‘sobrevivência’. Em contrapartida, a alma é a grande transgressora, a que rompe com os padrões do passado e do já conhecido para conduzir-nos ao mundo inexplorado do que está por vir, do que ainda deve ser criado.

Essa é a única forma de rompermos com esse modelo antigo, tradicional, que já provou estar se esgotando, e que precisa ser reinventado. Esse é o caminho do Equilíbrio Dinâmico, o ‘longo caminho curto’ – como menciona Bonder – longo no desconforto da aprendizagem e reinvenção, mas curto por ser sustentável e evolutivo.  Se queremos de fato formar ‘organizações vivas’, precisamos da alma transgressora; é ela que vai desconstruir o modelo estável e ‘ordenado’ das estruturas piramidais de poder e de caixinhas que vemos ainda hoje nas empresas. E nessa saudável transgressão, as áreas de gestão de pessoas e comunicação têm um papel fundamental, já que devem representar a alma da empresa. O grande desafio dessas áreas está em ser vitalizadoras das organizações, propulsoras do equilíbrio dinâmico, e não continuadoras submissas das estruturas tradicionais.

Os sistemas vivos se auto-organizam, crescem e se desenvolvem, em um dinamismo e movimento constantes, mas se o gasto de energia chegar a um nível muito alto, a partir de um forte incremento de complexidade e interação com o meio ambiente (o que é chamado de alta entropia), aqueles buscarão uma nova forma de existir e de se relacionar com seu contexto, reinventando-se em uma nova estabilidade dinâmica, e isso é o que chamamos adaptação.

A realidade que vemos no mundo organizacional atual traz uma alta entropia. As estruturas estão gastas, estão perdendo energia para o ambiente, a vitalidade está ameaçada. Estamos diante de um ponto de bifurcação: por um lado podemos manter um sistema que já provou não ser sustentável, ou podemos reinventar o modelo, recriar uma nova estrutura, formar sistemas organizacionais dinâmicos, cheios de alma, de pulsão e vitalidade.

Essa adaptação requer de todos e de cada um a dor da mudança, o desconforto de abandonar formas tradicionais de pensar e atuar, em benefício de uma nova e melhor maneira de relacionar-nos no âmbito profissional e organizacional. O essencial não precisa mudar: nossa humanidade, nossa paixão e criatividade, a vontade de fazer acontecer, o natural impulso de crescer … tudo isso deve permanecer. O que devemos abandonar, deixar ir, é nossa exagerada sede de lucro, nossa fixação por vencer, por acertar sem errar, nossa obstinação por dominar, possuir, competir, controlar.

Como disse um dos grandes lideres ainda vivos – o Dalai Lama – na virada do século: “A menos que haja um novo milênio no interior do nosso coração, o novo milênio lá fora, por si, não vai mudar muita coisa’”. Só transformaremos esse mundo tão necessitado de vida se começarmos internamente, por nosso ser e nossas ações. E isso é o mais difícil, mas como sabemos que o valioso traz consigo o preço do esforço, que tal começar agora?

Paulo Monteiro – Twitter @pmonteiro88

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